quinta-feira, maio 8

De relógios e celulares

"Piensa en esto: cuando te regalan un reloj te regalan un pequeño infierno florido, una cadena de rosas, un calabozo de aire. No te dan solamente un reloj, que los cumplas muy felices, y esperamos que te dure porque es de buena marca, suizo con ancora de rubíes; no te regalan solamente ese menudo picapedrero que te ataras a la muñeca y pasearas contigo. Te regalan -no lo saben, lo terrible es que no lo saben-, te regalan un nuevo pedazo fragil y precario de tí mismo, algo que es tuyo, pero no es tu cuerpo, que hay que atar a tu cuerpo con su correa como un bracito desesperado colgandose de tu muñeca. Te regalan la necesidad de darle cuerda para que siga siendo un reloj; te regalan la obsesión de atender a la hora exacta en las vitrinas de las joyerías, en el anuncio por la radio, en el servicio telefónico. Te regalan el miedo de perderlo, de que te lo roben, de que se caiga al suelo y se rompa. Te regalan su marca, y la seguridad de que es una marca mejor que las otras, te regalan la tendencia a comparar tu reloj con los demas relojes. No te regalan un reloj, tu eres el regalado, a tí te ofrecen para el cumpleaños del reloj."

O conto Preámbulo a las instrucciones para dar cuerda al reloj, de Julio Cortázar, é resgatado por García Canclini em um dos melhores verbetes de seu Lectores, espectadores e internautas (Gedisa, 2007).

A fala é sobre o conto pós-digital, mas serve para pensar sobre a necessidade de medir o tempo e a nossa relação com diferentes objetos usados para esse fim, até os relógios digitais integrados a telas que servem para muitas coisas.














A incorporação do relógio ao computador e ao celular faz aquele velho equipamento colocado em volta do pulso parecer meio estranho e obriga, como faz García Canclini, a repensar os preâmbulos em torno do próprio celular. Como diz o autor: "cuando te regalan un móvil, te regalan también la facilidad de iniciar conversaciones desde lugares remotos, la necesidad de estar pendientes de llamadas, la ansiedad por encender el móvil antes de salir del cine, cuando apenas pasan el final de la película, para saber que hay de nuevo...". Sem falar na necessidade de investimento mensal em créditos, na possibilidade de ser descoberto pelo chefe 24 horas por dia e por aí vai.
Num ditado bem contemporâneo lembrado na discussão dessa semana no Saia Justa: "Quando os celulares entram em promoção... é porque está chegando o dia das mães". Pobres mães! Melhor pensar muito bem antes de escolher o presente - ou quem vai ser presenteado.


** O livro de Néstor García Canclini é interessante, mas um pouco superficial. "Leitura de metrô", como definiu uma amiga minha. Vale pelos insights e pelo estilo ágil da escrita. Descobri na Feira do Livro de Santa Maria que já foi traduzido para o português (Editora Iluminuras, 2008).

3 comentários:

Daniela Hinerasky disse...

é exatamente isso lili. há um par de anos não uso relógio. dá-lhe "soneca". prejuízo para as fábricas de despestadores, principalmente. hahahha. em muito os celulares substituiram as funções dos relógios, sem entrar nas outras discussões.
mas sabe que estamos sendo saturados por uma onda de relógios (uns modelos esportivos com strass, inclusive - blergh) que impulsionaram as atenções e vendas pra relógios novamente? ciclos, mercados... dos relógios, que também tem que sobreviver. pena que a maioria vem da China. aff.

Miuxapop disse...

Bei, Lili...ótimo tema de post (ok, quem sou eu para dizer isso?).

Mas o que me fez pensar é quando nós compramos, para uso próprio, um pequeno inferno florido de pulso.

Sempre achei estranho a convenção de horário: meus avós moram na fronteira Brasil-Uruguai e nunca mudam o relógio para horário de verão; e isso não muda nada na vida deles.
Penso que o jardim fica cada vez menor para a nossa geração.
Bjoca!

Liliane disse...

OI, gurias. Legal esse texto, né? Pena que eu não mantenha esse canto atualizado. Vamos ver se me animo.

Ah, Ana, lá na fronteira já ouvi uma classificação inusitada para o horário de verão: horário dos homens. POrque esse a que estamos mais acostumados é o "horário de deus". Pode?

Beijos ;)